Cerca de 14 milhões de pessoas convivem com o diabetes no Brasil. Grande parte desses pacientes realiza tratamento com insulina e/ou outros medicamentos injetáveis. Considerando que as agulhas devem ter uso único, e alguns pacientes chegam a precisar de quatro a cinco injeções ao dia, além de realizar automonitoramento até sete vezes ao dia, pode-se imaginar quanto material perfurocortante com potencial contaminante – composto por agulhas, lancetas, fitas reativas e insumos usados na bomba de infusão de insulina – é produzido diariamente.

Isso sem falar em pacientes que fazem uso de medicamentos injetáveis para o tratamento de outras doenças como obesidade, enxaqueca, alergias, infertilidade, artrite, HIV, hepatite, esclerose múltipla, osteoporose ou outras condições, e nos usuários de anabolizantes (seja para o tratamento do hipogonadismo, ou, de forma ilícita, para hipertrofia muscular).

Os pacientes com diabetes insulinodependente provavelmente são os responsáveis pela produção do maior volume desse tipo de material, lembrando que esta é uma condição vitalícia que requer cuidados ininterruptos. Um agravante é a associação entre diabetes mellitus e hepatite B, hepatite C e HIV.

A possível associação entre o diabetes e estas infeções implica que um indivíduo com qualquer um destes problemas, e que não siga as práticas adequadas de eliminação dos materiais utilizados no tratamento e monitoramento, poderá infectar muitas pessoas durante um período de tempo prolongado. Devemos considerar ainda que a maioria dessas infecções tem uma forma crônica, que muitas vezes não é detectada em curto prazo, e, portanto, traz mais riscos para a comunidade.

Serviços envolvidos no atendimento ambulatorial e hospitalar desses pacientes são obrigados a seguir diretrizes técnicas e legais para o manejo seguro de todos os resíduos, desde a sua produção até o destino final, porém, o mesmo nível de cuidado ainda não foi implantado na comunidade com relação aos materiais de uso domiciliar, o que fica na dependência do trabalho informativo de cada profissional no atendimento ao seu paciente. E você, médico, enfermeiro, paciente, indivíduo da comunidade, já parou para pensar no que acontece com todas essas agulhas, lancetas, seringas, frascos e outros insumos utilizados nesse processo?

Pesquisas demonstraram que grande parte dos pacientes não segue as recomendações para o descarte seguro de materiais perfurocortantes utilizados em domicílio. Como não há um programa nacional estabelecido para o descarte seguro, os indivíduos muitas vezes depositam suas agulhas, seringas e lancetas no lixo ou os jogam no vaso sanitário.

Trabalhadores de saneamento e equipes de limpeza em hotéis, centros de entretenimento, aeroportos, estações de trem e outros locais públicos são expostos diariamente a seringas usadas pelo público. É possível que isso aconteça, em grande parte, por falta de conhecimento de todos os riscos envolvidos, ou por falta de informação e estímulo para o descarte correto.

E como podemos contribuir para reduzir as consequências deste grave problema de saúde pública? Além de todas as orientações que esses pacientes devem receber durante o atendimento pelo profissional de saúde, é preciso ainda reservar algum tempo para lembrá-los da importância de assumir a responsabilidade por alguns cuidados essenciais para a preservação da saúde e do meio ambiente.

Se não houver condições de informar ao paciente sobre todos os cuidados listados abaixo, é importante ao menos deixá-lo ciente da importância de buscar as informações necessárias na Unidade de Saúde mais próxima de seu domicílio.

Abaixo são descritas recomendações gerais para o descarte seguro de materiais perfurocortantes em domicílio:

  1. O material deve ser descartado em coletor adequado, no local em que é gerado, logo após o uso.
  2. Nunca descartar objetos perfurocortantes no lixo comum ou no lixo reciclável. Nunca jogar o material no vaso sanitário.
  3. Agulhas e seringas não devem ser reencapadas ou desacopladas da seringa para descarte.
  4. Todos os itens perfurocortantes e contaminantes gerados em domicílio devem, idealmente, ser descartados em coletores específicos como os utilizados em serviços de saúde (caixas tipo DESCARTEX, DESCARPACK).
  5. Apesar dessa recomendação, uma instrução muito comum dada aos indivíduos na maioria das regiões do país é a de colocar suas agulhas e seringas em um recipiente de plástico como a garrafa PET, porém o material desse tipo de recipiente não é apropriado. Um coletor adequado deve apresentar as seguintes caraterísticas: material inquebrável, com paredes rígidas e resistentes à perfuração ou vazamento e abertura larga o suficiente para o depósito de materiais sem acidentes. A tampa deve oferecer boa vedação.  Quando o coletor específico não estiver disponível, pode-se orientar, de forma alternativa, o uso de frascos de produtos de limpeza vazios que apresentem as características acima, evitando riscos tanto para quem transporta como para quem recebe o material nos serviços de saúde.
  6. Frascos de insulina, canetas descartáveis (exceto as tampas) e reservatórios de insulina das bombas de infusão devem ser descartados no mesmo coletor destinado aos materiais perfurocortantes.
  7. O recipiente com produtos perfurocortantes descartados deve ser mantido em local de fácil acesso, porém seguro.
  8. Jamais se deve tentar resgatar algo do coletor. Também é expressamente proibido o esvaziamento desses recipientes para reaproveitamento.
  9. Depois de preenchido, o coletor deve ser entregue a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) próxima, para tratamento e destino adequados.
  10. Canetas recarregáveis e tampas de canetas descartáveis podem ser depositadas em lixo comum. Pilhas e baterias dos monitores de glicose e da bomba de infusão devem ser descartadas em coletores específicos, hoje disponibilizados em alguns serviços de saúde, incluindo farmácias e mercados de grandes redes.

Esses cuidados evitam acidentes com adultos, crianças e animais de estimação.

Para facilitar o entendimento da importância de tomar esses cuidados, e educar tanto pacientes quanto profissionais de saúde sobre o descarte apropriado dos materiais perfurocortantes utilizados em domicílio para o tratamento do diabetes, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) produziu um vídeo com conteúdo educativo. A exibição do vídeo em locais de atendimento médico, e também em aulas educativas, não só é permitida como é encorajada pela entidade.

 

Referências:

  • Diretrizes, Sociedade Brasileira de Diabetes (2017-2018). Práticas Seguras para o Preparo e aplicação de Insulina. A.C. Farmacêutica: 2016; p. 256 – 266.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília: Ministério da Saúde, 2013.160 p. il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 36).
  • Cartilha de Orientação De Descarte de Resíduos no Sistema FMUSP-HC.
  • Resíduos gerados por usuários de insulina em domicílio: Proposta de protocolo para Unidades de Saúde. Cienc Cuid Saude. 2012.
  • Improper sharp disposal practices among diabetes patients in home care settings: Need for concern? Indian Journal of Endocrinology and Metabolism. 2015.
  • Analysis: The Impact of Needle, Syringe, and Lancet Disposal on the Community. J Diabetes Sci Technol. 2011.

 

Artigo publicado no Portal PEBMED em 18 de Abril de 2019

 

Autora: Daniele C. Tokars Zaninelli, endocrinologista em Curitiba.