O tratamento da obesidade está baseado na associação de uma série de intervenções, como mudança de hábitos alimentares (o que não implica em grandes restrições ou dietas radicais), aumento da atividade física e mudanças comportamentais.

Por Drª Daniele C. Tokars Zaninelli*

O tratamento da obesidade está baseado na associação de uma série de intervenções, como mudança de hábitos alimentares (o que não implica em grandes restrições ou dietas radicais), aumento da atividade física e mudanças comportamentais. Infelizmente há um percentual alto de pacientes que não consegue perder peso de forma satisfatória com essas medidas, necessitando de tratamento farmacológico. O mesmo deve ser escolhido com base nas características de cada paciente.

A obesidade deve ser considerada uma doença crônica que merece cuidados a longo-prazo, mesmo após atingir o peso alvo, prevenindo a recuperação do peso.

Embora a restrição dietética resulte em perda de peso inicial, a maioria das pessoas falha em manter a perda de peso a longo-prazo. Uma série de hormônios, peptídeos e nutrientes estão envolvidos na regulação do peso corporal, e muitos deles ficam “perturbados” após a perda de peso, o que deve representar uma resposta compensatória ao déficit energético.

Estudos científicos têm demonstrado que muitas destas alterações persistem por pelo menos 12 meses após a perda de peso, ou seja, mesmo após 1 ano do início do tratamento para perda de peso, período onde a restrição alimentar e o déficit energético já não são tão intensos, o organismo continua tentando alcançar o peso a que ele “estava acostumado”.

Isso sugere que a facilidade que encontramos em recuperar o peso após um período de dieta, mesmo após um ano de seu início, tem uma base fisiológica forte, e não significa simplesmente o resultado do ressurgimento voluntário de velhos hábitos.

 

O peso corporal sofre regulação central a partir de sinais hormonais periféricos liberados pelo trato gastrointestinal, pâncreas e tecido adiposo, em resposta à ingestão de nutrientes. Eles agem primariamente no hipotálamo, regulando a ingestão de alimentos e o gasto energético.

São vários os moduladores periféricos do apetite. Alguns estão listados abaixo, assim como sua ação principal.

– Leptina – A leptina é um hormônio produzido pelas células de gordura, que age no sistema nervoso central indicando como estão os estoques de gordura no corpo, o que, por sua vez, representa os estoques de energia. A leptina atua regulando o balanço energético corporal.

– Ghrelina – estimula o apetite

– PYY – induz à saciedade

* o equilíbrio entre a ghrelina e o PYY indica quando devemos começar ou terminar uma refeição

– Colecistoquinina – induz à saciedade

– Insulina – inibe o apetite, porém quando engordamos desenvolvemos resistência à ação da insulina, e a fome aumenta.

– Polipeptideo pancreático – reduz a ingesta calórica

– GLP-1- induz saciedade e aumenta o gasto energético

Através da ação integrada desses “sinalizadores”, a restrição calórica resulta em alterações compensatórias agudas que culminam com o aumento do apetite e redução importante do gasto energético. Todos juntos vão contribuir para o reganho de peso.

Analisados em conjunto esses dados indicam que pessoas obesas que perdem peso sofrem a ação de múltiplos mecanismos compensatórios que induzem ao ganho de peso, o que persiste por pelo menos 1 ano. Isso dificulta, e muito, a manutenção do peso perdido.

A intenção do organismo em evitar a todo custo a perda de peso é de proteger o indivíduo da desnutrição, ou seja, quando percebemos que estamos sob condições restritivas, tudo começa a funcionar no sentido de tentar preservar a vida. A falta de alimento é interpretada como uma situação de perigo à saúde.

Estes mecanismos seriam vantajosos para pessoas magras que vivessem em um ambiente onde a comida é escassa. Já nos dias de hoje, em que a oferta de alimentos calóricos é muito grande e a atividade física mínima, as altas taxas de recuperação do peso perdido não são surpreendentes. Tudo isso leva a crer que existe um “ponto de ajuste” do peso para cada indivíduo, e o organismo resiste bravamente a qualquer tentativa de mudança.

Os estudos científicos têm demonstrado que o manejo efetivo da obesidade necessitará de tratamentos a longo-prazo que sejam efetivos e seguros para contra-atacar esses mecanismos compensatórios e reduzir o apetite. Dado o número de alterações nos mecanismos reguladores do apetite que tem sido descritos, uma combinação de medicamentos provavelmente será necessária.

Fonte: New England Journal of Medicine. Long – Term Persistence of Hormonal Adaptations to Weight Loss, 365;17 oct 2011

*Daniele C. Tokars Zaninelli é médica e especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e atua como endocrinologista em Curitiba.