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Perguntas Frequentes

Óleo de coco: vale a pena usar?

Você já deve ter visto algum anúncio dizendo que o óleo de coco:

  • Ajuda a emagrecer
  • Protege o coração
  • Melhora a imunidade
  • Diminui o risco de demência

Entre outros diversos possíveis efeitos benéficos.

Mas será que existe alguma evidência de que podemos esperar esses resultados?
E mais preocupante: será que seu uso pode trazer algum risco à saúde?

É sobre isso que vamos discutir nesse artigo, que inclui os posicionamentos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), além das conclusões de alguns estudos científicos sobre o assunto.

Devemos lembrar que não é um nutriente ou alimento isolado que vai determinar nossas condições de saúde ou doença, mas sim o conjunto de hábitos de vida (alimentação, atividade física, tabagismo, etilismo, estresse, sono), que, interagindo com a predisposição genética e fatores do ambiente, podem prevenir ou desencadear doenças.

Mas então por que discutir especificamente o papel do óleo de coco em nossa saúde?

Porque tenho visto, na prática diária de meu consultório, pacientes que dizem ter optado pelo óleo de coco, aparentemente pelos motivos errados.

Frente a tantas decisões que devem ser tomadas a todo instante com relação ao trabalho, família e saúde, não vale a pena gastar energia nem dinheiro para obter produtos que, além de não trazerem benefícios, podem trazer riscos à saúde.

Se você escolheu o óleo de coco por julgar que ele traz um toque especial às suas receitas, e o consumo é eventual, não há o que discutir. Você não precisa se preocupar. Mas caso esteja interessado em fazer boas escolhas visando melhorar a saúde, podem existir melhores opções.

A vida da maioria das pessoas já é complicada o suficiente, então vamos tentar descomplicar e não sentir culpa por não consumir aquele produto da moda, que a mídia insiste em dizer que vai fazer toda a diferença.

Vamos aos fatos:

  • Diversos estudos têm demonstrado que tanto o teor quanto o tipo de gordura presente nos alimentos estão associados ao risco de morte por doenças cardiovasculares, e também por outras causas.
  • A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da aterosclerose reforça o impacto das mudanças alimentares e de estilo de vida sobre a hipercolesterolemia (CT e LDL-C), pontuando que o controle na ingesta de ácidos graxos saturados na dieta é fundamental para a saúde cardiovascular.
  • O óleo de coco tem em sua composição 90% de gorduras saturadas. Essa porcentagem é mais alta do que a encontrada na manteiga (64%), na carne vermelha (40%), ou mesmo na banha (40%). O excesso de gorduras saturadas na dieta está associado ao aumento dos níveis do colesterol LDL, que aumenta o risco de doenças cardíacas. Apesar disso, o óleo de coco também parece aumentar o HDL (colesterol bom), o que não é suficiente para contrapor seus efeitos deletérios.
  • Um estudo publicado recentemente no Journal of the American College of Cardiology analisou dados consistentes da literatura mundial, e deu o seguinte parecer sobre o uso do óleo de coco em relação às doenças cardiovasculares: gorduras saturadas (sólidas à temperatura ambiente), incluindo óleo de coco e óleo de palma, têm efeitos deletérios sobre os fatores de risco cardiovascular. As suposições atuais de potenciais benefícios à saúde não são fundamentadas, e o uso desses óleos deve ser desencorajado. 


CONFIRA ABAIXO O POSICIONAMENTO OFICIAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM) E DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA (ABESO) SOBRE O USO DO ÓLEO DE COCO PARA PERDA DE PESO:

- Considerando que muitos nutricionistas e médicos estão prescrevendo óleo de coco para pacientes que querem emagrecer, alegando sua eficácia para tal propósito;

- Considerando que não há qualquer evidência nem mecanismo fisiológico de que o óleo de coco leve à perda de peso;

- Considerando que o uso do óleo de coco pode ser deletério para os pacientes devido à sua elevada concentração de ácidos graxos saturados, como ácido láurico e mirístico;


A SBEM e a ABESO posicionam-se frontalmente contra a utilização terapêutica do óleo de coco com a finalidade de emagrecimento, considerando tal conduta não ter evidências científicas de eficácia e apresentar potenciais riscos para a saúde.

A SBEM e a ABESO também não recomendam o uso regular de óleo de coco como óleo de cozinha, devido ao seu alto teor de gorduras saturadas e pró- inflamatórias. O uso de óleos vegetais com maior teor de gorduras insaturadas (como soja, oliva, canola e linhaça) com moderação, é preferível para redução de risco cardiovascular.

POSICIONAMENTO OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NUTROLOGIA A RESPEITO DA PRESCRIÇÃO DE ÓLEO DE COCO:

Obtido a partir da polpa do coco fresco maduro (espécie Cocos nucifera L.), o óleo de coco é composto por ácidos graxos saturados (mais de 80%) e ácidos graxos insaturados (oléico e linoléico). Os ácidos graxos saturados caprílico, láurico e mirístico possuem entre 6 e 12 átomos de carbono e por isso são chamados de ácidos graxos de cadeia média. Os demais ácidos graxos saturados são capróico, cáprico, palmítico e esteárico. As gorduras láuricas, como o óleo de coco, são resistentes à oxidação não enzimática e, ao contrário de outros óleos e gorduras, apresentam temperatura de fusão baixa e bem definida. Em virtude de suas propriedades físicas e resistência à oxidação, o óleo de coco é muito empregado no preparo de gorduras especiais para confeitaria, sorvetes, margarinas e substitutos de manteiga de cacau.

Considerando-se que o óleo de coco tem sido divulgado, especialmente na imprensa leiga, como integrante de uma dieta preventiva para doenças crônicas, como quadros neuro-degenerativos, obesidade e dislipidemia, bem como para outras funções tais como imunomodulação e tratamento antimicrobiano, a Associação Brasileira de Nutrologia considera que deve se posicionar sobre o assunto:

1.Quando o óleo de coco é comparado a óleos vegetais menos ricos em ácido graxo saturado, recente revisão mostrou que ele aumenta o colesterol total (particularmente o LDL-colesterol) o que contribui para um maior risco cardiovascular [3].
2. Tem sido reportado que o óleo de coco possui atividade antibacteriana, antifúngica, antiviral e imunomoduladora, porém tais estudos são predominantemente experimentais, notadamente in vitro, não havendo estudos clínicos demonstrando esse efeito. Assim, faltam ainda evidências suficientes para recomendar o óleo de coco como agente antimicrobiano ou imunomodulador [4].
3. Até o momento, não existem estudos clínicos que tenham abordado o efeito de óleo de coco na função cerebral de indivíduos saudáveis ou portadores de alteração cognitiva [5]. Enfatiza-se também que não existem evidências clínicas de que o óleo de coco possa proteger ou atenuar doenças neuro-degenerativas, como a doença de Alzheimer [6].
4. Um número muito pequeno de estudos, com resultados controversos, tem relatado os efeitos do óleo de coco sobre o peso corporal em seres humanos. Estudo observacional de populações de ilhas do Pacífico consumindo grandes quantidades de cocos revelou que os Tokelauanos, que consumiam quantidades mais elevadas de coco (63% de energia derivada do coco versus 34% na dieta de Pukapukan), eram mais pesados e tinham pregas de pele subescapulares maiores [7]. Em um ensaio controlado randomizado, 40 mulheres (20-40 anos) foram instruídas a consumir diariamente 30 mL de óleo de coco ou de soja (placebo) por 12 semanas. Os grupos também foram instruídos a caminhar por 50 minutos por dia e a seguir um padrão alimentar saudável, e ambos os grupos consumiram aproximadamente 10% menos calorias do que no início. Apenas o grupo de óleo de coco apresentou circunferência de cintura reduzida no final do estudo (redução de 1,4 cm) e uma tendência ao aumento de insulina circulante. Embora os autores tenham usado recordatório alimentar de 24 horas no início e no final do período de estudo, as quantidades exatas de óleo de coco consumido pelos indivíduos não foram precisadas [8]. Examinando pequena amostra (13 mulheres e 7 homens) com 24-51 anos e índice de massa corporal médio de 32,5 kg/m2, prévio estudo (sem grupo controle) mostrou que o consumo de óleo de coco virgem (30 mL/dia/4 semanas) foi associado a redução da circunferência da cintura (2,61 ± 2,17 cm) em indivíduos do sexo masculino [9]. Examinando o efeito na saciedade, pequeno estudo (n=18) mostrou que não existe efeito de uma refeição rica em ácidos graxos de óleo de coco sobre o apetite ou ingestão alimentar [10]. No geral, não existem evidências suficientes para concluir que o consumo de óleo de coco leva à redução de adiposidade.

Sendo assim, considerando-se inclusive a robusta associação entre consumo de ácidos graxos saturados e o risco de doenças cardiovasculares e a ausência de grandes estudos bem controlados relativos ao óleo de coco em humanos,

A ABRAN recomenda que:

  • o óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento da obesidade;
  • o óleo de coco não deve ser prescrito na prevenção ou no tratamento de doenças neuro-degenerativas;
  • o óleo de coco não deve ser prescrito como nutriente antimicrobiano;
  • o óleo de coco não deve ser prescrito como imunomodulador.

Concluindo: Todos os óleos vegetais devem ser consumidos com moderação, porém não há vantagens em trocar o “seu” óleo pelo óleo de coco esperando benefícios à saúde. Use-o com cuidado caso seja o de sua preferência.

REFERÊNCIAS:

1) Trending Cardiovascular Nutrition Controversies – JOURNAL OF THE AMERICAN COLLEGE OF CARDIOLOGY 2017
2) Harvard School of Public Health - Department of Nutrition – Ask to the Doctor: Coconut Oil 2016
3) V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose
4) Posicionamentos:
- SBEM/ABESO: https://www.endocrino.org.br/media/uploads/posicionamento_oficial_%C3%B3leo_de_coco_sbem_e_abeso.pdf
- ABRAN: http://abran.org.br/para-publico/posicionamento-oficial-da-associacao-brasileira-de-nutrologia-respeito-da-prescricao-de-oleo-de-coco/